Como Legacy of Atlantis corrige um erro histórico da franquia com nosso Lobo-Guará - Lara Croft BR
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Como Legacy of Atlantis corrige um erro histórico da franquia com nosso Lobo-Guará

Meme Lobo-Guará Tomb Raider

Vocês repararam que o denominado “lobo” no novo jogo pode ser, na verdade, o nosso lobo-guará? No episódio 3 (“Criaturas do Peru”) da série de mini-documentários de Tomb Raider: Legacy of Atlantis, lançado no último dia 6 de julho, os desenvolvedores e o site oficial se referem à criatura apenas como “lobo”. No entanto, as novas artes conceituais revelam um predador de pernas longas e marcadamente pretas — características que nos fazem levantar essa hipótese imediatamente. Muito além de um bicho genérico, o guará carrega uma mística muito particular e grande importância no Brasil, sendo o símbolo máximo do Cerrado e o rosto da nota de 200 reais. Por ser o maior canídeo da América do Sul, tudo indica que a sua imponência visual fisgou a equipe da Flying Wild Hog na hora de projetar um adversário de respeito. Mas o que um ícone tão atrelado ao território brasileiro estaria fazendo nas ruínas andinas do Peru? E por que essa escolha pode representar uma das correções históricas mais inteligentes da franquia? Deixamos os detalhes a seguir para vocês tirarem suas próprias conclusões!

Fonte: Banco Central do Brasil

Mas afinal, o que é o Lobo-Guará?

Antes de falarmos dos games, vale a pena entender quem é esse animal na vida real. Cientificamente chamado de Chrysocyon brachyurus, o lobo-guará é uma verdadeira joia evolutiva. Apesar do nome, ele não é um lobo verdadeiro (como os lobos cinzentos do Hemisfério Norte), mas também não é uma raposa e nem um cachorro selvagem; ele é o único sobrevivente de uma linhagem antiga e exclusiva de canídeos sul-americanos.

No imaginário popular e no folclore rural do interior, ele infelizmente acabou ganhando uma fama injusta de “ladrão de galinhas” — um mito que gerou muita perseguição ao animal ao longo da história. Na realidade, os biólogos e especialistas o definem de uma forma bem mais bonita: ele é o “jardineiro” do Cerrado. Isso porque o lobo-guará real é um bicho tímido, solitário e pacífico, que prefere fugir de humanos a atacar, e sua dieta é estritamente onívora. Mais da metade de sua alimentação é baseada em frutos, sendo o principal deles a lobeira (Solanum lycocarpum), cujas sementes ele ajuda a espalhar pelo ecossistema, completando o cardápio com pequenos roedores e insetos. Longe de ser um carnívoro implacável!

Fonte: National Geographic Brasil

Os Lobos em Tomb Raider e o erro histórico da franquia

Lobo em Tomb Raider: Anniversary (2007)

O paradoxo na franquia começou na própria essência de como os canídeos eram retratados na região andina. Nos jogos originais Tomb Raider de 1996 e Tomb Raider: Anniversary de 2007 — que contavam a história clássica no Peru —, os inimigos que guardavam as cavernas e o grande portão de acesso a Vilcabamba eram retratados como lobos cinzentos (Canis lupus). O grande problema é que o lobo cinzento é uma espécie que nunca cruzou a linha do Equador em direção ao sul; eles simplesmente não existem na América do Sul. Essa foi uma das inautenticidades geobiológicas da era clássica da franquia. Os lobos estavam lá logo na cutscene inicial do portão e espalhados pelo gameplay das fases seguintes.

A correção no novo remake: O Lobo-Guará assume o trono

É aqui que Tomb Raider: Legacy of Atlantis, a “reimaginação” da aventura clássica, entra para corrigir o curso da história. Os desenvolvedores da Flying Wild Hog decidiram reimaginar essa jornada, e uma das mudanças mais inteligentes de design foi substituir o impossível lobo cinzento pelo lobo-guará. Esta é uma hipótese, obviamente. Ainda não temos confirmação oficial dos desenvolvedores (Flying Wild Hog ou Crystal Dynamics).

Fonte: https://www.virtuallara.com/sottr-wildlife.html

Vale lembrar que o Maned Wolf (Lobo-Guará) já havia feito sua estreia na franquia em Shadow of the Tomb Raider (2018) em áreas como Kuwaq Yaku e San Juan, mas a nova arte conceitual de Legacy mostra que o design foi refinado e estilizado para dar a ele um aspecto muito mais imponente e assustador, digno de um verdadeiro guardião de ruínas. Ainda não temos uma visão clara de como ele será in-game, mas a arte conceitual e as próprias entrevistas no mini-documentário, nos dão a ideia que será uma criatura mais assustadora que os lobos originais dos jogos anteriores e uma versão mais fantasiosa bem distinta da forma como ele foi pintado em Shadow of the Tomb Raider (foto ao lado direito).

A escolha dos desenvolvedores: Reimaginação dos Andes peruanos e Vilcabamba

Essa troca de visual não é um caso isolado. Ela faz parte de um esforço maior da equipe para trazer camadas de profundidade e contexto histórico real para o game. Andrzej Kula (Level Designer na Flying Wild Hog) menciona no mini-documentário (episódio 2) “Reimaginando o Peru” como o ambiente das primeiras fases foi repensado:

“Historicamente, a Cidade de Vilcabamba foi saqueada por soldados espanhóis. Então incluímos essa história na nossa versão de Vilcabamba. Logo nas cavernas, você já pode notar algo como um campo de batalha e o portão, na verdade, serviu como um bastião para o povo inca resistir contra os espanhóis. Mas, historicamente, eles entraram, né? Então, conforme você atravessa os vários túneis e cavernas, você vai notar sinais de luta, de combate, de armadilhas acionadas pelos soldados espanhóis e todas aquelas subtramas presentes no ambiente”.

Fica a dúvida no ar: será que teremos o lobos-guará já no grande portão do Peru, assim como os lobos cinzentos apareciam na cutscene inicial no jogo de 1996?

O mundo real vs. a ficção: O problema das estatísticas

Embora a escolha do lobo-guará seja um salto gigantesco em relação ao lobo cinzento em questão de verossimilhança, ela ainda cria um “efeito colateral” geográfico curioso se olharmos para a biologia real. Na vida real, o lobo-guará quase não existe no Peru. Dados oficiais da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) apontam que o Brasil abriga mais de 90% de toda a população mundial da espécie (aproximadamente 15.800 indivíduos maduros).

No Peru, o animal está na categoria de criticamente ameaçado, restando menos de 40 indivíduos isolados na região de Pampas del Heath, no extremo sudeste do país (fronteira com a Bolívia) — uma área de planície de savana que fica geograficamente bem longe das montanhas andinas e florestas tropicais de Vilcabamba.

Os predadores canídeos que realmente dominam o Peru na vida real seriam a raposa-colorada (Lycalopex culpaeus), o cachorro-do-mato-de-orelha-curta (Atelocynus microtis) ou a raposa-de-Sechura (Lycalopex sechurae). No entanto, para uma obra de ficção e aventura, o lobo-guará se destaca por ser um animal maior. A escolha dos designers de usar uma imagem estilizada e imponente do guará, com pernas longas e crina escura, faz todo o sentido para criar um inimigo que cause impacto visual e respeite a herança de tamanho dos jogos originais.

País População de Indivíduos Maduros (Estimativa) Situação de Conservação Local
Brasil ~15.849 (Mais de 90% do total) Vulnerável (sofrendo com o desmatamento do Cerrado com o avanço da agropecuária)
Paraguai ~613 Precária / Em declínio
Argentina ~487 Vulnerável
Bolívia < 1.000 (Não há censo exato) Incerta / Isolada
Peru < 40 indivíduos Criticamente ameaçado / Quase extinto localmente
Uruguai Praticamente 0 Funcionalmente Extinto

Fonte: https://www.canids.org/species/view/PREKGA855611

O eterno “flerte” de Tomb Raider com o Brasil

A presença do lobo-guará na Missão de San Juan e em Kuwaq Yaku em Shadow of the Tomb Raider (2018) não é o único elemento que denuncia uma forte inclinação geográfica da franquia Tomb Raider em direção às terras brasileiras. Na verdade, Shadow deixa outras pistas pelo caminho. Uma delas é que em determinado momento do jogo, o próprio Jonah menciona que os botos cor-de-rosa só existem na Amazônia, e como sabemos, o boto é uma das figuras mais icônicas da fauna brasileira e do nosso folclore.

Essa recorrência mostra que a franquia vive um eterno “quase” com o Brasil, muitas vezes tangenciando o nosso território antes de cravar os pés repetidas vezes no Peru. Curiosamente, a história da própria Lara Croft quase começou em solo brasileiro.

De acordo com o documento de design original (GDD) do primeiro jogo de 1996 — Game Design Document versão 1.3, de 20 de março de 1995 (Fonte: core-design.com), concebido e desenhado por Toby Gard (criador da Lara Croft), a primeira parte do lendário artefato Scion não seria encontrada nos Andes peruanos. Os storyboards iniciais revelam que a aventura começaria em uma cadeia de montanhas a leste do Rio Xingu, no coração do Brasil como se pode ver no recorte abaixo.

Referência ao rio Xingu (“Xingu River”) no Brasil. Página 31 do Game Design Document (versão 1.3).

No final das contas, o Brasil acabou descartado nos rascunhos de 1995, consolidando o Peru desde 1996 como o cenário definitivo da franquia. O país vizinho acabou se tornando o destino carimbado de Lara Croft, aparecendo em:

  • Tomb Raider (1996);

  • No romance The Lost Cult (2004) — que dá sequência aos eventos de Angel of Darkness (2003);

  • Tomb Raider: Legend (2006);

  • Tomb Raider: Anniversary (2007);

  • Shadow of the Tomb Raider (2018);

  • e agora em Tomb Raider: Legacy of Atlantis (2027)

O lobo-guará e as falas sobre a Amazônia em Shadow servem como um eco nostálgico desse primeiro roteiro de Toby Gard: uma prova de que, mesmo quando a bússola de Lara Croft aponta para o Peru, um pedaço do ecossistema e da história do Brasil teima em (re)aparecer no mapa.

Tomb Raider: Legacy of Atlantis toma decisões ousadas e artisticamente ricas. A substituição do lobo europeu/americano pelo nosso magnífico lobo-guará é uma bela homenagem à fauna sul-americana e uma correção muito bem-vinda de um erro que durava décadas. E convenhamos: debater a precisão geográfica de um lobo-guará no Peru perde um pouco o sentido quando lembramos que a Lara vai logo em seguida lutar contra Velociraptors e um T-Rex nas fases seguintes, não é mesmo? O que são lobos-guará no Peru para um jogo que tem dinossauros, certo? Viva a fantasia dos videogames e a lore da franquia Tomb Raider!

Para saber mais sobre os bastidores e os criaturas que irão aparecer no Peru, não deixe de conferir abaixo o novo episódio que legendamos, e o artigo oficial publicado pelo playtombraider.com.

Até a próxima!

Sobre o autor

Henrique Menezes

Webdesigner e co-fundador do LCBR. Gamer de carteirinha e apaixonado por Tomb Raider desde criança. Tenho 32 anos. Moro em Goiânia, Goiás. Sou graduado em Comunicação Social: Audiovisual, especialista em Cinema e Audiovisual e mestre em Performances Culturais. Desenvolvi minha dissertação na UFG sobre o Tomb Raider de 2013 e sou fã hardcore da era clássica. Instagram: @henriquecroft.